quinta-feira, 5 de março de 2009

Rádio Clube de Pernambuco (PRA8)



OITENTA ANOS NO AR

Meraldo Zisman


No dia 6 de abril de 1919 foi fundada a Rádio Clube de Pernambuco (PRA8). As datas ou acontecimentos históricos permanecem indeléveis nas lembranças, quando fazem parte das memórias de infância. E este foi o meu caso, em relação à pioneira Radio Clube.

A partir de 1942, o Nordeste passou a acompanhar as notícias da Segunda Guerra Mundial pelo Repórter Esso - um programa retransmitido no Recife pela PRA8. Lá em casa, a hora do noticiário era sagrada. Todos ficavam escutando as novidades, silenciosamente, em volta do rádio Philips (com válvulas) protegido por um pano, que minha mãe havia bordado com carinho. Aquele era o aparelho mais importante da casa, de porta e janela, na Rua da Alegria, bairro da Boa Vista, onde morava a maior parte dos judeus fugidos das perseguições nazistas. Esse grupo de europeus era (ou aparentava ser) tão grande, que o bairro era conhecido como "Gueto da Boa Vista", cujas ruas, becos e vielas pareciam córregos a desaguar na Praça Maciel Pinheiro, um ponto de concentração obrigatório dos "russos" - termo através do qual o povão e as "pessoas de bem" do Recife designavam os estrangeiros prestamistas.

Foi naquele logradouro de belo chafariz que, deslumbrado, escutei as primeiras discussões políticas e as tragédias da Segunda Grande Guerra. Dentre elas, recordo-me a importância da Radio Clube, cujas ondas hertzianas varavam as paredes das modestas residências, quase sempre subdivididas por tabiques, que abrigavam várias famílias. O tema preferido desses "gringos" eram os avanços das tropas russas. Muitos deles discutiam com entusiasmo, em tom bem alto, empregando uma mistura de português com iídiche (dialeto falado pelos judeus oriundos da Europa Oriental).

A Batalha de Stalingrado, o desembarque da Normandia, o Marechal Zukov e o Marechal Timoshenko, eram as pièces-de-résistance das acaloradas discussões, embasadas pelas notícias dos locutores da PRA8. Para mim, criança ainda, foi emocionante ouvir o speaker (assim denominado o locutor, na época) da Radio Clube noticiar o fim da Segunda Guerra Mundial e, via de consequência, o final do Holocausto.

Como sou judeu, o fato de a história de parte de minha vida chegar através da pioneira Radio Clube de Pernambuco foi marcante. Obrigado, minha velha e nova PRA8! Feliz aniversário! Lembrem-se, caros leitores: a História não possui um tecido próprio, ela é engendrada mediante pequenas histórias individuais, como esta!

DIFERENÇAS DE MENTALIDADES*

DIFERENÇAS DE MENTALIDADES*

Meraldo Zisman

Psicoterapeuta

Vicky Cristina Barcelona é o titulo do filme escrito e dirigido por Woody Allen, exibido no Brasil em novembro de 2008, e interpretado pelos atores Javier Bardem, Scarlett Johansson, Rebecca Hall e Penélope Cruz. As duas protagonistas - Vicky e Cristina -, ambas americanas, são grandes amigas em férias em Barcelona. Vicky faz o tipo mulher sensata: está noiva e vai se casar em breve com um nerd americano. Cristina, por sua vez, está sempre em busca de uma nova paixão para agitar mais sua cabeça desmiolada. O enredo é mais ou menos assim, tendo como pano de fundo a encantadora cidade espanhola de Barcelona.

Certo dia, em uma galeria de arte, elas conhecem Juan Antonio, um pintor espanhol do tipo latin-lover made in Hollywood, que, segundo as fofoqueiras locais, acabara de sair de um divórcio atribulado, tendo sido, até, esfaqueado pela sua (ex) mulher Maria Helena - interpretada pela fogosa, encantadora e maravilhosa atriz Penélope Cruz.

Ainda naquela noite, durante o jantar, o pintor Juan Antonio (Javier Bardem) se aproxima da mesa em que Vicky e Cristina se encontram e lhes faz uma proposta de viajar com ele para Oviedo. Vicky, de imediato, sempre muito ajuizada, inicialmente rejeita a idéia; mas, Cristina a aceita e consegue convencer a amiga a acompanhá-la. Este é o início do relacionamento conturbado de ambas com Juan Antonio; e, piora, depois, quando entra em cena a mulher do pintor. Nesse imbróglio, Woody Allen teve a oportunidade de evidenciar seu talento genial: ele é um neurótico, no campo da psicodinâmica humana.

Acho, porém, que faltou algo nesse filme. Percebi uma dificuldade de entrosamento entre a civilização "latina" e a "anglo-saxônica". As duas culturas se admiram mutuamente, mas, não se interpenetram. Assim como Barcelona, são estereotipadas e voltadas para o turismo, bem ao gosto dos norte-americanos. Na película, eu senti uma dissociação entre o cenário (a cidade de Barcelona), a biografia das americanas, e, também, a do Diretor. Das três artistas, fico com Penélope Cruz, muito embora as americanas sejam de tirar o fôlego de qualquer mortal. Por fim, afirmo que as duas culturas podem se amar ou se odiar, porém, jamais se casar. Com toda a certeza, não dará certo: as mentalidades de ambas são muito diferentes.

* A ARIZ PENELOPE CRUZ RECEBEU O OSCAR ( FEVEREIRO DE 2009) COMO A MELHOR ATRIZ COADJUVANTE, ENQUANTO O HUMOR JUDAICO SE FAZ PRESENTE DO PRINCIPIO AO FIM DE MAIS UM FILME DO CINEASTA WOODY ALLEN.

segunda-feira, 2 de março de 2009

MARLEY & EU

(direito a morrer com dignidade)

Meraldo Zisman

Psicoterapeuta de Jovem

Depois do Natal, fui assistir ao filme "Marley e eu", que tem, no elenco, o ator Owen Wilson, como John Grogan (autor do livro homônimo), e a atriz Jennifer Aniston, como sua esposa Jenny. Líder de arrecadação norte-americana, e produção da 20th Century Fox, ele se tornou o primeiro filme, passado em um feriado de Natal, a alcançar US$ 100 milhões de bilheteria. Seu roteiro gira em torno de um casal de jovens jornalistas que, após perderem o primeiro bebê, decidem criar um cachorro. Eles vão a um canil, compram um filhote da raça labrador retriever, e o batizam com o nome Bob Marley, o mesmo do famoso cantor de reggae.

A película evidenciava as incríveis peripécias de Marley: ele quebrava portas, comia roupas, lançava-se sobre os visitantes, roia mobílias, e terminou sendo expulso de uma escola de treinamento de cães. Depois disso, a família decidiu castrá-lo, em uma tentativa (frustrada) de torná-lo mais calmo, e não degenerar a raça.

A despeito de seu mau comportamento, Marley conseguia ser muito amado, tanto pelos Grogans, quanto pelos filhos do casal que foram nascendo. Era realmente encantador observar o carinho de todos por ele, apesar do desespero dos amigos e conhecidos frente às suas peripécias imprevisíveis. O cachorro fazia parte, realmente, da vida do casal, e acompanhava todos os acontecimentos e nuances da biografia da família, sendo muito solidário, com seus donos, na dor e na alegria.

Em muitos momentos, a câmera focalizava os Grogan, do ponto de vista de Marley; outras vezes, focalizava do ponto de vista das pessoas, sem que o espectador pudesse distinguir a visão que prevalecia. Os sentimentos e as reações do cachorro eram bem radicais e opostos. Para ele, era tudo ou nada: ele gostava ou não gostava. Era como dizem por aí: "se você adotar um cão e torná-lo próspero, ele não o morderá". Eis a diferença entre um homem e um cão.

Com o correr do tempo, porém, Marley foi envelhecendo: perdeu as forças, não pode mais correr atrás das crianças, passou a ter doenças e achaques da velhice. A família o amparou e o protegeu, sentindo que ficou idoso. Marley desapareceu algumas vezes, mas os familiares disseram que os cachorros sabem quando sua hora derradeira chega, e preferem ficar sozinhos.

No entanto, isso não ocorreu. Marley passou seus últimos momentos com o Grogan pai, em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) veterinária, longe das crianças e do lar. Terminou sendo sacrificado na clínica, e enterrado pela família, com todo o carinho possível, no jardim de sua casa.

Esse é um filme triste e real como a própria vida. Como médico, acredito que Marley, por se tratar de um cão, pôde ser sacrificado humanamente. Embora tenha sido muito piegas, seu enterro foi bonito e todos que o amavam estavam lá.

Agora, pergunto: não seria melhor, para Marley, que o sedativo mortal tivesse sido administrado na presença de seus entes queridos, e ele tivesse morrido junto daqueles que o amavam?

Nunca poderemos saber o desejo de Marley porque cães não falam: eles são, tão-somente, monoblocos de emoções, amor e paixão.

Infelizmente, o ser humano não goza dos mesmos direitos que os animais, ou seja, não lhe é permitido morrer em casa, ao lado de seus familiares. Em geral, as pessoas morrem rodeadas por profissionais competentes e equipamentos sofisticados. E, no final, os médicos dizem: foi feito tudo!

Entre os meus conhecidos, desconheço quem teve o direito de morrer na própria casa. Eu aconselho: escrevam nos testamentos que lhes permitam morrer em paz, cercados dos entes queridos. Na prática, acho que as famílias deveriam ter um médico de confiança, como antigamente havia o chamado "médico de família".

Que falta faz um médico amigo nessas horas!

Vivemos acorrentados, hoje, a regras desumanas. Há bastante comoção no filme porque, no fundo, todos desejam possuir os mesmos direitos que o cão. Para mim, é essa a mensagem de Marley e eu: faz-se necessário repensar tanto a trajetória do cachorro, quanto a das pessoas a seu redor.

EMIGRAÇÃO Uma nova tragédia nacional

EMIGRAÇÃO

Uma nova tragédianacional

Meraldo Zisman

Emigração é a saída espontânea de pessoas de uma região para outra, dentro de um mesmo país ou de um país para outro. Conceituado isso, vamos ao caso emblemático que recentemente envolveu uma moça brasileira na Suíça. Esse caso atinge de maneira insólita o Brasil, pela atitude intempestiva dos nossos governantes, respectivamente Ministro do Exterior e Presidente da República, à qual se acresce a falta de comedimento dos nossos homens de Imprensa.

A veracidade ou fantasia da agressão da jovem - não importa se auto-infligida ou realizada por xenófobos - aviva o preconceito contra os brasileiros que por falta de oportunidade, foram obrigados a migrar. Faltou humanismo aos nossos Poderes (incluindo o 4º Poder - A Mídia) - "a dor de uma família deveria e poderia ser mais bem respeitada". Por outro lado, esse caso chama a atenção para um fenômeno que está ocorrendo em nosso país e que é hipocritamente escondido da grande maioria de nossa população - um segredo de polichinelo: a emigração brasileira e a busca de uma nova cidadania, baseada na ancestralidade original... Continuo:

A partir da década de 60, a emigração de brasileiros (para fora) do País foi aumentando, agudizou-se em 1980 e daí para diante, somente aumentou. Observações sociológicas mais aprofundadas apontam de serem muitos desses emigrantes jovens altamente qualificados e não, como distorcem, serem os brasileiros pobres o principal item de exportação, destinado à prostituição feminina ou masculina a domicílio, como se propaga na Espanha, na Itália e outros países da União Européia, sem falar nos Estados Unidos.

O Brasil, considerado historicamente como destino para imigrantes passou a ser exportador de "gente manufaturada" e não exclusivamente de commodities. Tamanha transformação representa um fato social e político que vem sendo progressivamente reconhecido e denunciado pela imprensa, pelas universidades e, acredito, até pelos nossos governantes; por estes, de forma muito lenta - infelizmente. É necessário que ocorram fatos chocantes como esse da Suíça, ou a morte de um eletricista em Londres, para que o problema seja ventilado, mas logo esquecido...

Algo deve estar sucedendo com os nossos jovens ou com o nosso país ou com ambos! Os jovens deixam o Brasil à procura de melhores oportunidades de trabalho. Os emigrantes brasileiros (na maioria), têm perfil de classe média: são jovens em início de carreira, principalmente os que ganhavam a vida, por aqui, como bancários, professores secundários, comerciários, etc.

Nos países de destino (quando conseguem entrar, legal ou ilegalmente), empregam-se em serviços de baixa qualificação, como lavadores de pratos, arrumadeiras, caixeiros, domésticos, limpadores, faxineiros. Levam vida miserável, moram precariamente, alimentam-se pessimamente e poucos são os que conseguem realmente melhorar de vida. Quem conhece a realidade da maioria desses jovens envergonha-se de como um país como o nosso aceita ver seus compatriotas sofrendo tamanha humilhação. Bastaria dizer que o Ministério do Trabalho e Emprego lançou a cartilha "Brasileiros no Exterior, Informações Úteis" para apoiar e alertar os trabalhadores brasileiros dos perigos que correm no exterior. Segundo pude me informar pela Internet, até o dia 19/07/2007 havia tempo para enviar sugestões para completar essa cartilha (ou manual) de sobrevivência para brasileiros: conferir no site (www.mte.gov.br/consultamigrante ). Como essa croniqueta foi escrita no dia 19/02/2009, pena que não possa dar o meu modesto pitaco e gritar "voltem para casa". Agora mais do que nunca, com a crise mundial. E concluo com mais uma pergunta: diante da conjuntura econômica atual, o Brasil poderá dar guarida a esses retornados? Não podemos nos esquecer de que todos somos brasileiros, independente de cor da pele, raça, religião ou ideologia.É primordial que lancemos um alerta geral quanto a esse problema!

O REI ESTÁ NU

CRÕNICA TRANSCRITA PARA OS ANAIS DA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE PERNAMBUCO

O REI ESTÁ NU

O Brasil é o país do duplo pensar. Conhecemos a inquisição de 1500 até 1821. Então você tinha um comportamento na rua e um comportamento interior, na sua casa. Isso é que esstá na Sociedade hoje. Essas pessoas estão falando apenas para o público externo. É um país que o dúbio, sem mencionar as chagas da escravidão e a matança dos ameríndios. De resto, é necessário que a nossa histografia de origem portuguesa seja reescrita pelos brasileiros. [Crônica escrita durante os acontecimentos ocorridos entre a Sociedade Desorganizada e o Crime Organizado (P.P.P) Primeiro Comando da Capital iniciado 14 de maio de 2006 - Dia das Mães]

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A Roupa Nova do Rei é um conto de fadas de autoria do dinamarquês Hans Cristian Andersen, publicado em 1837. Começa assim:

Era uma vez um bandido, fazendo-se passar por um alfaiate de terras distantes. Diz a um determinado rei que poderia fazer uma roupa muito bonita e cara, mas que apenas as pessoas mais inteligentes e astutas poderiam vê-la.

O ri, muito vaidoso, gostou da proposta e pediu ao bandido que fizesse uma roupa dessas para ele. O bandido recebeu vários baús cheios de riquezas, rolos de linha de ouro, seda e outros materiais raros, exigidos por ele para a confecção das roupas. Ele guardou todos os tesouros e ficou em seu tear, fingindo tecer fios invisíveis, que todas as pessoas alegavam ver, para não parecerem estúpidas. Até que um dia, o rei se cansou de esperar, e ele e seus ministros quiseram ver o progresso do "alfaiate"

Quando o falso tecelão mostrou a mesa vazia, o rei exclamou: "Que lindas vestes! Você fez um trabalho magnífico!", muito embora, não visse nada além de uma mesa, pois, dizer que não nada via seria admitir que não tinha a capacidade necessária para ser o rei.

Os nobres ao redor soltaram falsos suspiros de admiração pelo trabalho do bandido, nenhum deles querendo que achassem que era incompetente ou incapaz. O bandido garantiu que as roupas logo estariam completas, e o rei resolveu marcar uma grande festa na capital para que ele exibisse as vestes especiais, quando descesse a rampa do seu palácio do Planalto.

O leitor deve lembrar-se dessa história, da sua própria infância, sobre dois espertalhões que enganavam o rei, dizendo que iam vesti-lo com um traje finíssimo?

No final, o rei sai todo pomposo desfilando pela rua, e todo mundo nota que ele está nu, mas ninguém tem coragem de falar. Enquanto o protagonista desfila pela Rampa, um menino grita: "O rei está nu", e todos concluem que, se uma criança, com toda sua pureza, constatava que o monarca estava mesmo exposto em suas vergonhas, é que tudo naquele reino não passava de uma farsa.

E o nosso mito majestático, desmoralizado, recolheu-se ao castelo e jamais saiu de lá até a morte. Quando ao "costureiro vigarista", deu o fora com o ouro pago e não se soube mais dele, pois foi viver em um paraíso fiscal.

E por pior: todos os ministros e assessores que não ousaram admitir que não havia roupa nenhuma caíram em desgraça e foram demitidos.

Até ai, nenhuma novidade. Mas, graças a louvável esforço de pesquisa, técnicos em Ciências Carochinhas decidiram dizer não às convenções e apresentar a versão não-autorizada desse embuste, desenvolvida segundo os conceitos vigentes na sociedade e ambiente de longínquo país latino-americano. Toda desgraça teve início quando um bandido chamado Frajola gritou pelo celular:

"O rei está nu! O rei está nu!" Esqueceu que, no Brasil, nós todos "estamos nus".

DO LIVRO MARRANISMO EDIÇOES BAGAÇO, RECIFE, 2005.

RESPOSTA DE UM JUDEU NORDESTINO

(MARRANISMO)

Meraldo Zisman

... De quando sou interpelado por algum amigo qual a minha posição do conflito entre Palestinos e Israelenses... (Continuação)

Pretendo, neste artigo-reposta referir brevemente sobre marranismo no Brasil. Não devemos esquecer que essa histórica toda - dessa estranha Gente da Nação - foi alevantada pelo historiador pernambucano José Antônio Gonçalves de Mello, um dos poucos intelectuais que inauguraram o conhecimento do fenômeno marrânico na moderna historiografia brasileira, desnudando o preconceito antijudaico e restabelecendo a importância da contribuição dos judeus-portugueses, enquanto muitos de seus contemporâneos estereotiparam o hebreu em suas obras clássicas, sobre a gênese do povo brasileiro, tentando esconder seus preconceitos através de teorias pseudocientíficas de superioridades raciais. Como se, no gênero humano, houvesse raças puras e raças impuras ou superiores e inferiores.

Definindo o significado e a etimologia do vocábulo marrano: Diz-se do judeu ou mouro que, embora professando abertamente o Cristianismo, para evitar perseguições da Inquisição, permanece fiel à sua religião de origem. Muito embora o verbete marrano esteja dicionarizado pejorativamente como sinônimo de porco, sujo, asqueroso, excomungado, maldito e até de gado-ruim, no Rio Grande do Sul, prefiro, por razões emotivo-sentimentais, tomá-lo como vocábulo originário do hebraico, mar (amargo) e anussim (forçado). Forçado a deixar amargamente a religião de seus ancestrais e que, agora, muitos de seus descendentes desejam tornar ao seio de Israel.

Por sinal determinados vocábulos brasileiros são exemplos de nosso sincretisano. Por exemplo:

"OXALÁ" é vocábulo de dupla acepção e origem:

Quando escrita com inicial "O" maiúsculo significa divindade afro-brasileira, toma o lugar de Oloru (o espírito supremo). Sua cor preferida é o branco. Seu dia de devoção é sexta-feira, e os animais sacrificados em sua homenagem são cabras e pombos brancos.

Na correspondência entre orixás e santos católicos, é identificado com Nosso Senhor do Bonfim, na Bahia, ou com o Padre Eterno, Jesus Cristo e, raras vezes, com o Divino Espírito Santo.

O outro significado de oxalá (com, ‘O', minúsculo) é uma interjeição de origem árabe (semita), cujo sentido significa queira Deus; prouver a Deus: exprime o desejo de que certa coisa suceda; tomara que sim!

Oxalá tudo saia como planejamos!

Essa diversidade de interpretação do português falado no Brasil é exemplo da amálgama de concepções heterogêneas que se sedimentaram na formação do brasileiro, não o brasileiro do Eça de Queirós: o português que fez fortuna no Brasil e voltou para Portugal abonado, porém permaneceu um mal-educado, é entre nós o tipo de caricatura mais francamente popular. Conferir em Farpas, fevereiro de 1872.

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Considerando que as nossas origens marrânicas jaziam soterradas pelos poderosos de plantão e outros motivos mais, não me cabe, no momento, aprofundar-me.

O rio marrânico de nossa formação, apesar de soterrado pelo antijudaísmo, não importa se por razões religiosas ou, mais tarde, raciais, como na ditadura do Estado Novo, permaneceu, apesar das discriminações, irrigando nossa formação, ajudando a aplainar as diferenças das nossas diferentes etnias, formadoras de nossa gente.

Não podendo mais, em pleno fim do século 20 e início do XXI, alguns dos nossos pesquisadores, solapar a verdade de o fato histórico ser contido, resolveram desbravar, com sua pesquisa moderna e menos arraigada ou limitada, pois, como diz o Talmude: A verdade como o azeite sobe a água que camufla os mentirosos ou bajuladores do Poder como lamparina para iluminar os nossos passos. Eis que explode, como a força da água represada, em numerosos trabalhos histórico-científicos. Oxalá continue emergindo, mais e mais, e queira Deus deixe os círculos acadêmicos, ganhe o mundo, ganhe as ruas, as esquinas e as praças, antes que algum brasilianista dos states dela se apodere.

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Marranismo à brasileira

Diferentes dos marranos que se fixaram em outras plagas "deste mundo vasto mundo", foram os portugueses, cristãos-novos - cristãos-velhos, os achadores do Brasil. A demografia de Portugal, na época dos descobrimentos, era constituída por um milhão de católicos e 200.000 judeus! Bastaria tal fato para explicar a importância numérica dos judeus na constituição de nossa gente e país.

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Aliás, muito antes das viagens dos Descobrimentos, o infante D. Henrique convocou o judeu Jehuda Cresças, então vivendo nas Ilhas Baleares, personagem também conhecido como Jácome de Majora, cognominado El judio de lãs Brújulas, para chefiar, fazer parte do corpo docente da Escola de Sagres, e foram tantos outros: astrônomos, navegadores, matemáticos, lingüísticos de origem semítica que traçaram e colaboraram com o Ciclo dos Descobrimentos, cuja culminância, para Portugal, foi a Descoberta do Brasil. Nomes tantos que seria enfadonho enumerar.

Esses novos católicos-marranos-portugueses aportaram a Terra da Santa Cruz como descobridores, pioneiros, colonizadores, governadores, para fundar uma Nova Nação em um Mundo Novo. Já na frota do Almirante Pedro Álvares Cabral, viajaram eles como conselheiros, especialistas e muitos marinheiros judeus ou cristãos-novos fizeram parte da esquadra do Almirante nascido em Belmonte, lugar conhecido internacionalmente pela prática do cripto-judaismo, até os dias de hoje.

Cito alguns integrantes da frota cabralina pela relevância:

Mestre João, astrônomo e que tinha, como missão, testar instrumentos náuticos criados por outro judeu, Abrahão Zacuto; Pedro Nunes navegador, Gaspar de Lemos ou Gaspar da Gama, capitão de navio, intérprete e considerado, por muitos historiadores, co-descobridor do Brasil.

Na verdade, em nenhum momento de nossa História ou mesmo na Pré-História da Descoberta do Brasil, os judeus, convertidos e os não-convertidos, deixaram de fazer parte do feito-mor lusitano: o achamento do Brasil. Posso asseverar que inexiste país onde a contribuição dos cristãos-novos, marranos, convertidos à força ou por vontade própria, foi tão evidente e perene como na formação brasileira. Nas levas dos denominados degredados e delinqüentes, o crime maior era o de judaizante (judaizar é observar e praticar a lei dos judeus).

Na Igreja, mesmo entre seus catequizadores, vieram muitos cristãos-novos em seus quadros, como é o caso emblemático do Padre Anchieta, descendente de judeus.

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Em Portugal, estavam ameaçados, por "todos os lados", pela Inquisição. Esses fugidos ou refutados e amedrontados, constituíram a espinha dorsal da nossa europeização e colonização, apesar do longo braço da Inquisição, de cujos rigores não escapou um dos maiores oradores sacros: o Padre Antonio Vieira.

Apesar de saber que qualquer forma de colonialismo é deletéria (não há bom colonizador nem neocolonizador honesto), Portugal legou-nos muitas coisas boas. Uma das mais belas línguas do mundo, a nossa dimensão continental: a maioria dos bandeirantes era de origem cristã-nova. O ouro branco do açúcar era tecnologia dominada pelos judeus-portugueses, a mineração e o ciclo do ouro em Minas Gerais, a floresta amazônica, o que encetou a vinda de milhares de judeus de Marrocos e de outros lugares da África do Norte, para tomar parte no ciclo da borracha, criando uma neodescendência de judeu mameluco, que ainda não foi suficientemente explorada como outras escondidas riquezas da floresta, o pau-brasil, do qual Fernando de Noronha, essa misteriosa figura de donatário, empreendeu o início do desmatamento nacional com o mercado do pau-brasil. Sem dúvida, era um cristão-novo!

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A continuidade territorial

Quanto aos mistérios dos costumes desses sertões brasileiros, tão grandes e tão assemelhados, podem-se explicar pela mobilidade dos cristãos-novos no Brasil Colônia.

Apesar de encontrarmos famílias européias portuguesas, radicadas durante gerações nas mesmas regiões, de um modo geral, a população branca era de descendência cristã-nova e, apresentava uma grande instabilidade. A vigilância constante a que estavam expostas por parte dos agentes inquisitoriais, muitas vezes, impedia a sua radicação.

Sem esquecer que foram também os interesses econômicos dos judeus-portugueses que os levavam a residir temporariamente em vários lugares e mantinham uma união secreta entre familiares, cristãos-velhos, livres-pensadores, formando um continuum de casualidades de crenças, liberdade impossível de ser pensada ou praticada na velha Sefarad (palavra hebraica que designa a Península Ibérica). A Inconfidência Mineira leva muitas características desses tipos de associações. Os poetas, ah! os poetas, sempre chegam primeiro que os cientistas! Minha Pátria é Minha Língua (Fernando Pessoa).

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Os marranos de Portugal fugiram para o Brasil, principalmente.

Aqui, deitaram suas raízes, não para enriquecer ou, como dizia a maioria dos imigrantes europeus: fazer América, chegaram para ficar.

Assim como os negros escravos não desejam tornar à África, nem o japonês ao Japão, fizeram deste país tropical a sua pátria. Misterioso encanto... a Terra brasilis! Não vamos esquecer, por favor, os índios - verdadeiros proprietários (e o que deles restou). Devem ser respeitados os poucos remanescentes, nas suas riquezas culturais e ecológicas. Lamentavelmente, somente agora, em 2006, temos o primeiro índio doutor!

Voltando ao marranismo à brasileira, foram os cristãos-novos ou marranos que desbravaram as selvas, cultivaram a terra, apresaram índios, guerrearam os jesuítas, foram homens totalmente diferentes dos judeus de origem ashkenaze: judeus de fala iídiche, oriundos dos países da Europa Central e Oriental ou dos sefardins, descendentes dos primeiros israelitas de Portugal e da Espanha, expulsos, respectivamente, em 1496 e 1492, que se dispersaram pela Itália, Holanda, França, norte da África, Levante e outros lugares do Mundo.

Falar dos cristãos-novos, generalizando sua atuação e sua mentalidade, tem levado a uma concepção errônea do que foi o fenômeno marrano brasileiro. Antes precisamos de ungüentos para cicatrizar a chaga da escravidão, a vergonha da Inquisição e renovar o que nos ensinou o Genocídio dos povos indígenas. Para isso, conclamo a nossa elite intelectual..., principalmente a nordestina, a trabalhar para resgate do nosso passado.

Pensar que, em plena crise da Violência e do Crime Organizado, o governador do Estado de São Paulo (2006), Cláudio Lembo, diga:

O Brasil é o país do duplo pensar. Conhecemos a Inquisição de 1500 até 1821. Então você tinha um comportamento na rua e um comportamento interior, na sua casa. Isso é o que está na Sociedade hoje. Essas pessoas estão falando apenas para o público externo. É um país que é dúbio, sem mencionar as chagas da escravidão e a matança dos índios.

Em momento algum, aceito tal declaração pondo em perigo nossa frágil Democracia. Aceito, com restrições, tal desabafo como aviso aos nossos historiadores. Urge que nossos antropólogos, sociólogos e geógrafos façam, e divulguem ao povo um melhor conhecimento de nossa historiografia: da miscigenação e igualdade entre as diversas etnias formadoras de nossa gente.

O Professor. Avi Gross, especialista em Judaísmo Português e Espanhol e Marranos do Departamento de História Judaica, na Universidade Ben-Gurion em Beer-Sheva, no deserto de Neguev, afirma ser a concentração de convertidos à força mais numerosa nos estados do Nordeste brasileiro, principalmente Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba.

Em época tão tumultuada, é sumamente pertinente propagar a Nostra Aetate: Sobre a Igreja e as Religiões Não-Cristãs (Declaração do Concílio Vaticano II - ano de 1965):

Hoje, que o gênero humano se torna cada vez mais unido, e aumentam as relações entre os vários povos, a Igreja considera mais atentamente qual a sua relação com as religiões não-cristãs. E, na sua função de fomentar a união e a caridade entre os homens e até entre os povos, considera primeiramente tudo aquilo que os homens têm de comum e os leva à convivência.

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Acredito que, quando um povo está buscando se conhecer e não se envergonhar da suas raízes, passa a ser exemplo de concórdia para o mundo. Mundo esfacelado pelas guerras, pelos terrorismos de todos os naipes e os homens-bomba: terão suas chamas autocriminosas extintas pelo exemplo do novo homem brasileiro.

Daí lembro, aos meus patrícios, que a contribuição que une a nossa nação à saga do povo judeu é muito importante para entendermos a gênese do povo brasileiro. Porém, muitas vezes, fico pensando nessa herança maldita da Inquisição e em certos comportamentos do nosso homem interiorano, maioria das vezes, um valente, silencioso e reservado. Impossível saber o que pensa. Do não-parecer. Da economia. Do não-ostentar. Das festas e da religiosidade expostas, essas, sim, bastante às vistas. Dos postigos sempre cerrados e protegidos dos olhos dos curiosos. Falar o menos possível, medir o que se diz. Ao prestar um serviço, dizer com insistência:

- Desculpe qualquer coisa! - Como se desejasse pedir desculpas por algo que nunca fez. Evitar qualquer deslize é seu cuidado maior. Algo que poderia ser mal interpretado e, depois, servir da acusação no tribunal do Santo Ofício. Ninguém pode confiar em ninguém. Acusações podem surgir do nada. Não faltar à missa aos domingos, não perder uma procissão, andar na frente, comungar e acatar a palavra do pároco. Foram 300 anos da Inquisição, quinze gerações, e isso fica gravado no inconsciente coletivo de um povo. É a herança cultural da Inquisição.

Lembro a todos que a palavra religião vem do latim religare, que é a forma de uma pessoa se ligar a outra. Assim é como vejo o Marranismo Brasileiro, uma maneira de união para a criação do novo homem do século XXI. Certamente, esta seja uma das missões que cabe ao intelectual brasileiro: divulgar!


RETIRADO DO LIVRO -- PEQUENOS ESCRITOS DE UM MÉDICO
EDITORA LIVRO RAPIDO www.livrorapido.com.br

SÓCRATES

A vida me ensinou a nunca desistir
Nem ganhar, nem perder, mas procurar evoluir.
Podem me tirar tudo que tenho
Só não podem me tirar às coisas boas que eu já fiz
para as pessoas que eu amo
.



Pelo título, não pense que estou me referindo ao filósofo grego e, muito menos, ao craque futebolístico, mas, sim, ao meu cachorro da raça Labrador, ao qual batizei de Sócrates. Comprei-o em um canil, lá pelas bandas de Aldeia, arrabalde da Região Metropolitana do Recife, especialista em criação dessa raça e recomendado pelo meu confrade médico veterinário e engenheiro agrônomo Paulo Ponce de Leon Filho, que é o seu padrinho.

Originário, o meu Sócrates, de uma ninhada de cinco filhotes. Três deles, antes de nascer, foram adquiridos pela polícia de Brasília. Sobraram dois: um preto e o outro cor de chocolate. Pensei: Qual dos dois eu levo, o preto ou o chocolate? Indeciso fiquei! Enquanto pensava e me decidia qual dos dois filhotes levava, uma criança se aproximou e exclamou: - Papai, quero o chocolate!

O filhote preto saiu andando, e sua barriga era muito sem jeito. Andava como se fosse com a carroceria troncha de um caminhão (de bandinha). Balançava de um lado para o outro, o seu andar era diferente. Tinha jinga de sambista. Corri atrás dele. Por mais que corresse, ele se afastava. Parava e olhava para trás, me desafiando. Olhava para mim, virava o focinho para frente e continuava a sua marcha... Alcancei-o, finalmente, enquanto seu olhar maroto dizia tudo que seria a personalidade do meu novo companheiro. Aninhou-se nos meus braços e estava selado o pacto da nossa amizade. A escolha passou de eliminação para a afeição, que permanece entre nós, até hoje. Naquele instante, senti os verdadeiros valores da vida. Aos 70 anos, tinha meu cão. Meu sonho de criança foi realizado.

Sócrates me ensinou muita coisa. Pensava que cachorro era parecido com os homens. Ledo engano! Para começar, o cão não sabe mentir nem fingir: O rabo o denuncia. O cão, como chamam os criadores de raça pura, é incapaz de dissimular seus sentimentos. O rabo o acusa. O faro o faz ter certeza de suas escolhas e também denuncia os seus anseios. Não perde tempo para pensar. Ser cachorro é ser existencialista. Tudo é atual, momentâneo, impulsivo, A vida para ele é o que acontece; as suas investidas são em direção das vontades vindas das entranhas. Eclodem; num gesto repentino, inesperado, acerta uma lambida em meu rosto ou apanha um chinelo ou meias para escondê-las nos locais mais esdrúxulos. Quer sempre brincar, sabe quando estou mais triste ou menos triste. Respeita a minha dor e reconhece quando o dono está chateado. Fiquei com Sócrates, o preto, e não me arrependo. Confio no sentimento. Acredito em amor à primeira vista . As escolhas, grandes escolhas que fazemos na vida, são inexplicáveis.

Deixando de lado a filosofia, voltemos aos primeiros momentos do nosso encontro. Enquanto o segurava nos meus braços desajeitados, sentado no lugar do carona, minha mulher dirigia o carro. O velho, que abria e fechava a porteira do canil, disse:

- O senhor será muito feliz com ele. - E sou! Enquanto segurava o futuro amigo fiquei pensando qual o nome que daria àquele cãozinho.

- Sócrates foi como o batizei. Como seu xará filósofo, não escreve e terá a vantagem de ser um Sócrates sem um Platão para tomar nota de seus ensinamentos. Tem igualmente a vantagem de ser bonito e alegre. Vivi em nosso pequeno apartamento onde resido, apesar dos avisos dos entendidos que apartamento não é para cachorro daquele porte. Quando passeia, os transeuntes, apesar de atemorizados pelo seu tamanho, chamam a atenção para a sua beleza. Gosta muito de perambular pelas ruas, e as crianças adoram-no. Começou por destruir o modesto mobiliário da minha morada e, o pior, a exigir de mim e da empregada dedicação constante.

Quando posso, levo-o para a casa da praia, solto-o no grande terreno: corre muito, brinca, toma banho de mar, faz muita festa, fica alegre: Livre. Solto. Correndo. Sem coleiras ou enforcadores. Penso em o deixar lá. Logo. Acabado a novidade, volta para mim com um palmo de língua de fora, como se dissesse:

- Prefiro brincar com você. - E fica deitado bem junto aos meus pés. Sem mim, fica muito triste, apesar da liberdade, da areia, do gramado, dos pássaros, das aves e do mar de onde veio quando volto para o apartamento, que julgo ser para ele uma prisão. O pequeno apartamento fica menor sem Sócrates. Apeguei-me a esse animal como a ninguém na minha longa jornada. Conheço-o como a um filho querido. Recordo-me do tempo em que vivi sem Sócrates. Passei de não ser mais um velho solitário. Quando chego a casa, meu cão me faz festa. Sócrates foi crescendo. Quando completou dois anos de idade era impossível alguém me visitar. Lambia, ladrava, fazia uma festa para conhecidos e desconhecidos. Basta dizer que, na praia de Maria Farinha, é conhecido como Meninão, e os praieiros pensavam que o seu nome era em homenagem ao atleta. O único Sócrates "gente" que conheciam.

É um ser cordial e muito cuidadoso com seus afetos. Nas minhas angústias, penso sempre nele. Tem me recompensado as agruras da vida que passei e ainda vou passar. Com Sócrates, aprendi a lição: "Cada novo amigo que ganhamos na estrada da vida nos enriquece pelo que nos revela de nós mesmos". Nenhum homem conseguiu falar o que ele late, e eu não compreendo o seu falar:

Ser cachorro é pronunciar palavras de afetos que não fingem, escapando-se apenas em redemoinhos de latidos que melhor e mais dizem que a voz humana. É um au-au de amor, de aviso, de cuidado e de amizade. Muda o tom, quando algo está errado. Não sabe mentir. Quando ficava com o caseiro, sentia muita falta dele, e ele de mim (imagino eu). Deve ser verdade, pois deixava de comer. Não podemos viver um sem o outro. Tenho para mim que, em nossa amizade, existe uma dificuldade, meu cachorro vive 15 a 18 anos, terei que viver mais tempo para não deixar Sócrates por aí. Sabe qual a idade do meu cachorro? Dois anos! Tenho que viver mais do que calculava. Vou tentar. Não se deixa um amigo desses desamparado e muito menos solitário. Pobre de espírito é quem cunhou a frase: - Depois dos quarenta anos, não se faz mais amizades. Eu fiz.

A sabedoria de Sócrates vai me ajudar e ensinar. Sócrates é o cachorro por inteiro, global, completo feito uma única peça. Monobloco. E assim grudei-me ao cão. Meu cachorro! Como havia dito o velho que abria e fechava o portão do canil: - O senhor será muito feliz com ele. E sou!

Mas apesar dos maus olhos dos vizinhos, dos medos que o labrador preto causava ao descer o elevador do prédio, as coisas foram engrossando.

- Ele morde?

- Não, não morde - respondo.

Quando não convencidos, os elementos da classe social, meus companheiros daquele prédio-caixão, maioria da classe social média-baixa, passaram a ter medo de meu amigo. Eu somente tinha como argumento a pergunta:
- A senhora não vê a novela da Globo?

- A! sim! - respondia-me o atemorizado vizinho. Este cachorro é que é guia de cego.
E algum outro, ironicamente, disparava: - Ele, por acaso, tem dentes de borracha?

O pobre do Sócrates ficava sem entender nada daquela conversa da gente e queria brincar com suas enormes patas com o atemorizado personagem. Na rua, era a mesma coisa. Pensei em colocar uma plaqueta em seu pescoço, o que causava muito temor, quando ele comigo dava um passeio: Este cão é um labrador.

Ficava triste quando alguns transeuntes indagavam. E eu respondia, após a explicação de novela global.

- Da mesma raça do da novela da Globo. Serve também para a companhia de idosos. Não morde! Gosta de criança! Não ataca ninguém! Não me deixe sem ele, por favor, é minha melhor companhia e meu melhor amigo!

Mas, Sócrates começava a amedrontar os senhores e senhoras de Atenas, apesar dos meus esclarecimentos. O pior era o número de empregadas que entravam e saíam da minha casa. Nenhuma suportava descer três ou quatro vezes por dia com o cachorro. Eu cismava com todas. Será que estão maltratando Sócrates na minha ausência? Pensei em "dar-lhe fim". Ninguém queria aquele belo animal. A civilização do apartamento não compreendia nada. Tentei a Polícia: cão farejador, detector de drogas. Ouvi dizer que eles viciam os animais e, depois de um certo tempo, os matam. Descartado fazer o meu filósofo sentar praça. Não poderia imaginar, meu Sócrates, criado como meu filho, tendo tal fim. Descobri um site da Internet que adota cachorro. Anunciei. Depois de esperar muito, veio a proposta de uma possível adoção por um senhor do Rio Grande do Sul. Não gostei! Era muito longe! Nunca mais veria Sócrates.

Não sei o que vou fazer. Somente me resta tomar cicuta, nós dois, como seu xará. Porém, o cachorro Sócrates não está ensinado a desviar a nossa juventude. Não é casado com a Xantipa, e o dinheiro da feira, e muito menos é filho de uma parteira. Quem compra a sua ração sou eu, e ele somente acorda à noite quando o seu faro sente odor de estranhos. Em Filosofia, Sócrates tinha que ensinar aos seus discípulos o conhece a ti mesmo, enquanto o meu amigo já nasceu conhecendo pelo faro. Não, meu amigo, vou agüentar vivo, pena é: você deverá viver mais do que eu. Que pena de deixá-lo sozinho! Espero que não! Com ele, passei a conhecer melhor a mim mesmo.